QUE MILITARES PODEM HOJE USAR A BOINA VERDE?
Ciclicamente esta pergunta é-me feita e a resposta, ao contrário do que possam pensar, não é simples.
A Portaria n.º 345/2019 de 2 de
Outubro, Regulamento de Uniformes de Exército, não refere sequer a expressão “boina
verde”. Foi assim retirada da legislação portuguesa publicada em Diário do Governo/Diário
da República, onde estava desde 1955. As dúvidas eram tantas que o assunto foi três
anos depois regulado pelo Despacho n.º 107/CEME/2022 de 9 de Maio, do General José
Nunes da Fonseca. Pelo facto deste Despacho não ser público – nunca foi
publicado em Ordem do Exército – muitos que a ele não têm acesso,
mesmo militares do Exército e sobretudo antigos paraquedistas, desconhecem hoje o que ali está escrito.
Vou tentar ser sintético, mas não
é fácil…
O despacho referido determina como
regra que apenas podem usar a boina verde da especialidade paraquedista, de cor
“verde dos caçadores paraquedistas”, os militares da especialidade paraquedista
que estejam colocados nos:
- Comando da Brigada de Reacção Rápida e
Unidade de Apoio;
- Regimento de Paraquedistas;
- Regimento de Infantaria n.º 10;
- Regimento de Infantaria n.º 15.
Depois considera mais casos,
digamos, eventuais, ocasionais: os que integram “forças constituídas” das Tropas
Paraquedistas, como por exemplo, nas Forças Nacionais Destacadas, ou em exercícios
nacionais e internacionais, ou cerimónias destas tropas. Um exemplo prático, um paraquedista colocado fora destas unidades usa a boina preta,
se for a Tancos ao 23 de Maio, pode usar a boina verde, no dia seguinte, na sua
unidade, já tem de usar a preta.
Há ainda mais casos pontuais,
como os militares paraquedistas que estão colocados em unidades cujo encargo
operacional é da BrigRR, por exemplo, no Esquadrão de Reconhecimento da brigada que
está num Regimento que não é da especialidade (o Regimento de Cavalaria n.º 3).
Mas há ainda mais “casos
especiais”, excepções à regra são muitas e até por vezes confusas, terminando o
despacho com uma que é mesmo curiosa, para dizer o mínimo: também pode ser usada
“quando for especificamente autorizado pelo CEME”.
Em nenhum lugar no RUE ou neste
Despacho se faz referência à necessidade de manter a qualificação paraquedista –
saltar regularmente em paraquedas – para usar a boina verde. Ou seja, hoje a
boina verde foi equiparada à dos Comandos e das Operações Especiais, basta ter
o curso respectivo e estar colocado numa das unidades da especialidade para a poder usar.
Manter esta situação, desligar o
uso da boina da manutenção da qualificação, do meu ponto de vista, é um absurdo
que se mantém há 7 anos. Permite por exemplo que – legalmente – haja pessoal
paraquedista colocado numa unidade paraquedista, logo use a boina verde, mas
por opção pessoal não salte em paraquedas.
A solução é extraordinariamente simples
e não custa um cêntimo! Basta que a legislação – e a boina verde deve voltar a
ser incluída na Portaria do RUE – refira qualquer coisa como:
“Usa a boina de cor verde
caçador paraquedista o militar com o curso de paraquedista que mantenha a qualificação
paraquedista executando o número de saltos semestrais que lhe forem
determinados”.
Como actualmente só pode saltar
quem está colocado nas unidades paraquedistas, nem seria necessário identificar
as unidades. Recordo que não salta quem quer (nem nunca saltou!), só o pode
fazer quem é nomeado para isso e o Exército hoje, e bem, note-se, apenas autoriza
essa nomeação (e depois o respectivo pagamento do Suplemento de Serviço
Aerotransportado) a quem está nas unidades da especialidade. Equiparava-se
assim quem usa a boina verde a quem recebe o referido pagamento.
Para quem está no activo, seria
simples e digno, salta, usa a boina verde, não salta, não usa. Quem a
conquistou usa sempre o distintivo de qualificação, vulgo “brevet”, mantenha ou
não a qualificação, foi um curso que fez.
Miguel Silva Machado, Torres
Vedras, 20 de Outubro de 2022
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