EM MEMÓRIA DO CORONEL ALBERTO RIBEIRO SOARES (1938-2026)
Faleceu no passado dia 26 de Outubro o Coronel de Artilharia, Alberto Ribeiro Soares. Escrevo estas linhas com muita consideração e respeito pelo que de Ribeiro Soares conheci e pela amizade que sempre me dispensou. Não é um texto sobre a sua vida e longa carreira militar.
Sendo
certo que cada um escolhe o seu caminho de acordo com as circunstâncias que o
rodeiam, muitas imprevisíveis, também é certo que em determinadas alturas,
mesmo sem isso se valorizar, uma simples conversa, pode mudar muita coisa.
Acho que foi um destes momentos, uma troca de impressões com o Coronel Ribeiro
Soares, que me fez despertar para uma nova maneira de olhar para uma área de trabalho em que já estava, mas que
acabei por aperfeiçoar nos últimos 10 anos de vida militar.
Confesso
não recordar exactamente como começamos a trocar correspondência. O Coronel
Ribeiro Soares, na Reserva desde 1989, escrevia em jornais e revistas, deve ter
sido a partir daí, dessa sua intervenção púbica e de comentário meu a algum dos seus artigos. Ele vivia em Oeiras, eu em
Aveiro, nesses tempos as conversas mantinham-se sobretudo por carta!
Em
1994, estando na efectividade de serviço como Director da Biblioteca do
Exército, escreveu um livro designado “Militares Revolucionários, 1975: um
retrato-robot”. Esta obra «…tem o
mérito de trazer até nós, hoje (1994), com eles já inofensivos, o seu
auto-retrato. O que Rosa Coutinho, Otelo, Melo Antunes, Vasco Gonçalves e
tantos outros pensavam, ou não, da Política, da Economia, da Revolução, está
aqui em antologia, polémica, que permite, já com perspectiva, medirmos não só
os abismos e riscos em que o País caiu, como avaliar aqueles a que escapou…».
Ribeiro Soares, que tinha integrado desde o início o “Movimento dos Capitães”,
também se tinha desiludido com a deriva revolucionária e esta obra
mostra-o bem. Foi claramente escrita para a história e aqui está para quem a
queira consultar. Factos, como era seu timbre.
Em
boa verdade, havendo alguma “proximidade ideológica” entre nós, raramente
falamos de política, não era assunto, apenas um ou outro comentário. Eu
colaborava há um par de anos com revistas militares portuguesas e estrangeiras,
ele tinha longa carreira nesta área de intervenção, pela escrita, em diversos
órgãos de comunicação social nacionais – tinha-se formado na Universidade
Católica em Ciências da Comunicação, e feito um estágio em Paris no Centro de
Formação de Jornalistas. Sabia da experiência pessoal e tinha formação académica. Eu
era (e sou) um produto da experiência e da leitura. E aqui o meu primeiro
“choque”! Eu capitão do Serviço-Geral Paraquedista (sem formação académica
superior, portanto) ele coronel, produto da Academia Militar e do Instituto de
Altos Estudos Militares (com o curso complementar de Estado-Maior) e da
Universidade Católica, e…tratava-me como igual. Da idade ao posto, passando
pela formação, tudo nos diferenciava. Mas o coronel Ribeiro Soares o que valorizava
verdadeiramente era o assunto em debate. O resto eram “trocos”. A sua
inesgotável curiosidade intelectual assim lho determinava.
Em
finais de 1995 quando fui nomeado Oficial de Informação Pública na
missão das Forças Armadas Portuguesas na IFOR/Bósnia - a primeira vez que nas novas missões expedicionárias tal acontecia - logo
me procurou e sugeriu que procurasse informar-me de tudo o que me rodeava nessa
área do conhecimento militar que em Portugal era muito pouco cuidada, ver o que
faziam os outros países, escrever apontamentos sobre o tema e mais tarde
publicar para divulgação na instituição e mesmo fora dela. Na realidade foi
isso que fiz. Não tivesse havido esta conversa, este alerta e, possivelmente, tinha cumprido
a missão como a maioria o faz (e não vem ao mal por isso é claro!), respondendo
às necessidades do dia-a-dia e cumprir ordens, sem essa preocupação
"histórica" de registar, averiguar, perguntar, para mais tarde
transmitir a terceiros.
No regresso, foi pela sua
intervenção que iniciei a colaboração com a Revista Militar, exactamente com um
artigo de fundo de 50 páginas – "A Informação Pública na IFOR/Bósnia" (Revista de
JAN/FEV1997) - ao qual se seguiram muitos artigos parcelares sobre diferentes
aspectos desta actividade em diversas publicações militares (e até um livro, em
2004, "Exército e a Imprensa", em co-autoria com Sónia de Carvalho).
Foi por seu convite que fui depois admitido
como sócio efectivo da Revista Militar, da qual à data era Director-Gerente - soube
depois que não foi propriamente fácil ao coronel Ribeiro Soares defender a
minha aceitação, não havia consenso exactamente pela questão académica - e na
qual continuo e colaborar activamente. Durante uns 16 anos (1998-2013) escrevi
as Crónicas Militares Nacionais e integrei, como Secretário (em sua
substituição), a mesa da Assembleia-Geral durante 13 (2000-2013). Sempre senti,
até hoje, total aceitação por parte das sucessivas Direcções, em todas as
colaborações.
Ao longo dos anos Ribeiro Soares
sempre manteve uma intensa actividade editorial e foram muitas as vezes em que
nos cruzamos nos trabalhos que desenvolveu. Por regra perguntava-me aspectos
ligados aos paraquedistas – recordo-me de perguntas para: o Almanaque do
Exército; Os Generais do Exército Português; para o Hinos Patrióticos e Militares
Portugueses; ou sobre revistas periódicas e jornais dos paraquedistas. A ele, interrogava aspectos ligados ao Exército que tão bem conhecia e foram
vários os contactos que me forneceu para trabalhos que realizei. Era impensável
telefonar-lhe com uma pergunta e ele não conseguir resposta, ou quem a soubesse
dar!
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| Na mesa Ribeiro Soares, primeiro à esquerda, em 26 de Abril de 2017. Palácio da Independência, em Lisboa, no decurso de uma das Tertúlias do Fim do Império, dedicada à sua obra literária. |
Um parágrafo ainda para uma faceta que não conheci, mas dela soube por escrito, a de combatente. Transcrevo o capitão de Artilharia Ribeiro Soares no livro “Siroco – Os Comandos no Leste de Angola”, de António Pires Nunes, Edição Associação de Comandos, Lisboa, 2013, sobre a sub-unidade que foi voluntário para comandar em Angola (1968/1970): «…A CCAÇ 2360 era provavelmente a Companhia com mais baixas em toda a Região Militar de Angola, com 7 mortos e mais de 20 feridos evacuados, incluindo dois Alferes, 9 Furriéis e alguns GE’s (dos 2 grupos formados na Companhia, o GE 315 e o GE 329). Tudo isto em apenas 8 meses de comissão, sendo eu o 3.º (!) Capitão chamado a comandá-la. Era um Companhia com grande empenhamento operacional, que sofreu bastante com o aparecimento das minas na sua área…». E o mais curioso é que foi um amigo comum, Pedro Franco, da Liga dos Combatentes de Torres Vedras, que foi seu Furriel nessa companhia – e ferido com gravidade em combate – que me deu a conhecer esta descrição e faceta!
A saúde foi-se degradando, mas lá
nos íamos encontrando na Revista Militar e um ou outro telefonema, cada vez mais distante. Os projectos
de Ribeiro Soares nunca paravam!
Pelo início do ano o coronel Freire
da Silva, então Director da Biblioteca do Exército que tantas vezes ali o
recebia, informou do seu estado de saúde, depois da mais do que justa homenagem
que ali lhe foi feita. Percebia-se que a recuperação seria improvável.
O coronel Alberto Ribeiro Soares
que eu conheci era um espírito livre! Pode parecer estranho quando se fala de
um militar do Quadro Permanente, mas era assim que sempre o vi agir.
A falta do seu saber e da sua
predisposição para concretizar, fosse para ele, fosse ajudando outros, vai ser
sentida. Perdi um amigo no Exército.
Obrigado por tudo, meu Coronel!
Miguel Silva Machado, 28 de Outubro de 2026


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