ANIVERSÁRIO DA ASSOCIAÇÃO DE PARAQUEDISTAS DO ALTO TÂMEGA

 

Realizaram-se nos passados dias 18 e 19 de Setembro, em Chaves, vários eventos destinados a assinalar o 32.º  aniversário da Associação de Paraquedistas do Alto Tâmega (APAT); o 104.º aniversário do nascimento do Brigadeiro Paraquedista Armindo Martins Videira, flaviense que foi o paraquedista militar português n.º 1 e 1.º comandante da primeira unidade paraquedista das Forças Armadas Portuguesas, o Batalhão de Caçadores Paraquedistas (BCP); e também assinalar em Chaves os 70 anos das Tropas Paraquedistas Portuguesas. Permitam que chame a atenção para o discurso - de Nuno Coelho Chaves - que no final deste artigo transcrevemos. O seu alcance e profundidade, o modo como sensibilizou todos o que o ouviram, assim o determinaram para ficar disponível a quem o deseje ler!   


Dia 18 no Centro Cultural de Chaves iniciaram-se as comemorações, com uma exposição de material aeroterrestre e outra fotográfica – ambas cedidas pelo Regimento de Paraquedistas – e uma sessão informativa sobre as tropas paraquedistas que foi assim descrita pela Sara Esteves do “Canal Alto Tâmega”: «...O programa inclui intervenções do tenente-coronel paraquedista (reforma) Miguel Machado, investigador de longa data sobre a história dos Paraquedistas e responsável peça edição de vários livros desta temática, sobre as “Tropas Paraquedistas Portuguesas, 70 anos de história”. O segundo painel, o tenente-coronel paraquedista (reforma) Castro Lousada, abordou o tema “A queda livre Militar e os Sogas [Saltadores Operacionais de Grande Altitude]”, força da qual foi um dos principais impulsionadores. No terceiro e último painel, o sargento-mor paraquedista (reforma) Carlos Castanheira, falou sobre os “32 anos” da APAT, da qual foi um dos principais fundadores em 1994. Também foi apresentada uma pequena mostra de equipamentos e fotografias da história dos Paraquedistas. No final, no encerramento dos trabalhos, teve a palavra Domingos Barreira, primeiro Presidente da Direção da Associação de Paraquedistas do Alto Tâmega e seguiu-se uma visita à exposição fotográfica, composta por equipamentos e fotografias vindos do Regimento de Paraquedistas, apresentada pelo tenente-coronel paraquedista Mano e pelo sargento-chefe paraquedista Justino...»

Presentes muitos associados da APAT, entidades civis, militares, policiais e associativas das quais destaco o Presidente da Assembleia Municipal de Chaves, o comandante do Regimento de Infantaria n.º 10 de São Jacinto, unidade paraquedista, o comandante em exercício do Regimento de Infantaria n.º 19 de Chaves e um representante do comandante do Regimento de Paraquedistas, de Tancos. A União Portuguesa de Paraquedistas de Vila Nova da Barquinha, fez-se representar pelo coronel paraquedista (reforma) Carreto Cuba. 





No dia seguinte, 19 de Setembro, os eventos decorreram, primeiro no Regimento de Infantaria n.º 19 e depois nas instalações da APAT no Aeródromo Municipal de Chaves. Na realidade em 1951 quando Martins Videira fez a sua formação paraquedista – em França - estava colocado em Chaves no Batalhão de Caçadores n.º 10 – unidade da qual o RI 19 é unidade herdeira de tradições e património histórico. E foi também do BC 10 que partiu para Tancos em 1955 para comandar os paraquedistas. Assim, hoje, no RI 19 uma placa (ver foto) lembra Martins Videira.

Quero aqui destacar a presença de duas associações de paraquedistas, presentes com Guião, o Núcleo de Paraquedistas da Trofa e a Associação de Paraquedistas do Minho e também a União Portuguesa de Paraquedistas voltou a estar presente. 

Os eventos constaram de uma homenagem aos mortos, uma missa de sufrágio e a visita à referida placa em memória de Armindo Martins Videira.









Na parte da tarde, já na APAT – enquanto decorriam saltos em paraquedas que este fim de semana de 19 e 20 tiveram lugar no aeródromo – realizou-se a cerimónia comemorativa que constou de: homenagem ao Brigadeiro Armindo Martins Videira com deposição de uma coroa de flores no monumento em sua memória ali inaugurado no ano transacto; entrega pelo coronel paraquedista (reforma) Joaquim Carreto Cuba, representante da União Portuguesa de Paraquedistas, de um medalhão de 70 anos de curso de paraquedismo ao senhor Armando Martinho, do primeiro Curso de paraquedismo ministrado em Portugal, brevet nº 236; intervenção do Dr. João Luís Videira, filho do Brigadeiro Martins Videira; entrega de cartões de sócios honorários da APAT ao Dr. Videira, TCor Lousada e TCor Machado, pelo apoio que têm dado à associação (na preparação dos eventos de 2025 e desde então); palavras do Presidente da Direção da APAT, Paulo Ferreira e, terminando, intervenção de Nuno Coelho Chaves, vereador da Camara Municipal de Chaves, a qual, pela profundidade e cuidado com que foi elaborada, com a devida autorização, aqui fazemos questão de transcrever na íntegra.  


«…Hoje, neste lugar, não celebramos apenas datas. Celebramos memória, história, camaradagem, serviço e valores. Celebramos os 32 anos da Associação de Paraquedistas do Alto Tâmega, uma instituição que, ao longo de mais de três décadas, tem sabido preservar e transmitir a memória e os valores associados à condição de Paraquedista.

Celebramos os 70 anos das Tropas Paraquedistas Portuguesas — sete décadas de uma história marcada pelo espírito de missão, pela coragem, pela disciplina, pela camaradagem e, acima de tudo, pela disponibilidade para servir.

E celebramos, de forma muito particular, o 104.º aniversário do Brigadeiro Paraquedista Armindo Martins Videira, uma figura incontornável da história militar portuguesa e uma personalidade de enorme significado para as Tropas Paraquedistas e para o nosso concelho. Mas permitam-me que destaque uma palavra que considero essencial neste momento: serviço. Servir Portugal. Servir a Pátria. Servir os outros. É esse, afinal, o sentido mais profundo da condição militar.

Ao longo da nossa História, milhares de homens e mulheres assumiram o compromisso de colocar o interesse coletivo acima do interesse individual, cumprindo deveres, assumindo responsabilidades e, muitas vezes, enfrentando riscos e sacrifícios longe das suas famílias e em missões no território nacional e no estrangeiro.

Esse compromisso não termina necessariamente quando termina o serviço ativo. O serviço militar deixa uma marca para toda a vida. É por isso que aqueles que serviram Portugal merecem não apenas o nosso respeito, mas também o reconhecimento da sociedade e das instituições. E, naturalmente, o reconhecimento do Estado.

Um Estado que pede aos seus militares que sirvam, que cumpram, que se sacrifiquem e, quando necessário, que arrisquem a própria vida, deve também preservar a sua memória, reconhecer o seu mérito e dignificar aqueles que serviram a Pátria.

Esse reconhecimento nem sempre é tão presente, visível ou consequente quanto deveria ser. Por isso, momentos como este assumem uma importância particular: porque não deixam que a memória se perca e recordam-nos que, por detrás das grandes instituições militares, existem pessoas concretas, com nomes, rostos, famílias e histórias de vida.

Honrar quem serviu é também honrar o próprio País que esses homens e mulheres serviram. É neste contexto que a figura do Brigadeiro Paraquedista Armindo Martins Videira assume uma dimensão singular. A sua história confunde-se, em muitos aspetos, com a própria história das Tropas Paraquedistas Portuguesas. Foi o primeiro militar português a especializar-se em paraquedismo, em França, em 1951, e, em 1955, assumiu o comando da primeira unidade paraquedista portuguesa, o Batalhão de Caçadores Paraquedistas, liderando os primeiros passos de uma força que viria a ocupar um lugar de destaque na história das nossas Forças Armadas. A divisa que viria a marcar o espírito dos Paraquedistas resume uma forma de estar perante a vida:

“Que nunca por vencidos se conheçam.”

Mais do que um lema militar, estas palavras traduzem determinação perante a adversidade, coragem para continuar, capacidade de resistência e vontade de cumprir a missão. Setenta anos depois, os tempos e as missões mudaram, as gerações sucederam-se, mas os valores permanecem. E é importante que Chaves conheça e reconheça aqueles que ajudaram a construir esta história. Entre esses homens esteve também Armando Martinho, Paraquedista flaviense, cuja memória merece ser evocada no contexto das comemorações dos 70 anos das Tropas Paraquedistas.

A história das Tropas Paraquedistas não foi construída apenas pelos seus comandantes. Foi também feita pelos homens que integraram os primeiros cursos, que vestiram a boina verde, que aceitaram o desafio, que saltaram e que levaram consigo o nome das suas terras. Porque quando um flaviense esteve entre aqueles que participaram nos primeiros tempos do paraquedismo militar português, essa história deixa de ser apenas uma história militar. Passa também a fazer parte da história da nossa cidade.

É por isso que considero tão importante que esta memória seja preservada e transmitida.

Foi precisamente com esse sentido de memória que, em 19 de setembro de 2025, Chaves viveu um momento particularmente marcante de homenagem ao Brigadeiro Armindo Martins Videira.

Por iniciativa da Associação de Paraquedistas do Alto Tâmega, com o apoio do Município e das instituições militares, foi inaugurado, no Aeródromo Municipal, o Memorial que hoje permanece como lugar de homenagem.

Nesse mesmo contexto, Chaves passou também a ter uma Rua Brigadeiro Paraquedista Armindo Martins Videira, nas imediações do Aeródromo, junto à cabeceira da pista 33.

A atribuição de um nome a uma rua é muito mais do que um ato administrativo ou uma designação toponímica. É uma forma de levar o nome de uma pessoa para além do monumento e de o integrar no quotidiano da cidade. É permitir que, todos os dias, quem por ali passa possa perguntar: Quem foi Armindo Martins Videira? E é precisamente essa pergunta que queremos que continue a ser feita. Porque quando uma cidade atribui o nome de uma das suas figuras a uma rua, não está apenas a homenagear o passado. Está a transmitir uma história às gerações futuras. A localização desta rua, junto ao Aeródromo Municipal, assume também um significado especial. É aqui que está sedeada a Associação de Paraquedistas do Alto Tâmega e é aqui que se desenvolvem atividades ligadas ao paraquedismo. Este Aeródromo tem condições, tem história e tem, sobretudo, pessoas e instituições com vontade de lhe dar ainda mais vida.

Enquanto Administrador do Aeródromo Municipal, sinto, por isso, uma particular responsabilidade — e também um particular orgulho — em que este espaço continue a ser um lugar de memória, de encontro e de ligação entre gerações de Paraquedistas.

Um lugar onde possam regressar, reunir-se, celebrar e transmitir às novas gerações aquilo que receberam das gerações anteriores. Um lugar onde Chaves possa continuar a dizer, com orgulho: esta história também é nossa. O reconhecimento do Brigadeiro Armindo Martins Videira não começou nem terminou com a inauguração do Memorial.

Em julho de 2025, o Município de Chaves atribuiu-lhe, a título póstumo, a Medalha Municipal de Valor e Altruísmo, Grau Ouro, reconhecendo as suas qualidades pessoais e profissionais e o seu contributo para a criação das Tropas Paraquedistas Portuguesas.

São gestos importantes. Gestos que ajudam a preservar a memória e a devolver ao espaço público aqueles que contribuíram para construir a nossa História.

Mas estas comemorações não podem deixar de homenagear também os homens e mulheres que, ao longo de 32 anos, deram vida à Associação de Paraquedistas do Alto Tâmega. Aos seus fundadores, dirigentes e associados. Aos que organizaram iniciativas, preservaram documentos, reuniram camaradas, recordaram os que partiram e mantiveram viva a associação. Porque uma associação não são apenas os seus estatutos ou as suas instalações. Uma associação são as pessoas. São aqueles que aparecem, que trabalham, que dedicam o seu tempo e que não deixam cair a memória.

É também por isso que estas comemorações constituem uma oportunidade para recordar aqueles que já partiram. Entre eles, António Rodrigues, carinhosamente conhecido por “Nico”, antigo Paraquedista e associado da APAT. O Nico era uma presença habitual neste espaço, entre camaradas e amigos, contribuindo para que o Aeródromo fosse também um verdadeiro ponto de encontro da família paraquedista. Hoje, a sua presença já não é física, mas a sua memória permanece ligada a este lugar e à história da APAT.

E talvez seja essa uma das maiores forças da camaradagem: aqueles que fizeram parte dela nunca desaparecem verdadeiramente. As comemorações dos 70 anos das Tropas Paraquedistas e os 32 anos da APAT deixam-nos uma reflexão que ultrapassa a própria celebração. Aqueles que servem o País não devem ser esquecidos. Nem durante o serviço, nem depois dele, nem quando já não estão entre nós. O Estado tem responsabilidades para com aqueles que lhe dedicaram a sua vida: reconhecer o mérito, preservar a memória e dignificar quem serviu.

Reconhecer aqueles que serviram Portugal não é um favor. É uma forma de cumprir um dever de memória, de justiça e de gratidão. E é também uma forma de transmitir às gerações futuras que o serviço, o compromisso e a dedicação ao interesse coletivo têm valor. Por isso, é fundamental continuar a contar estas histórias aos mais jovens, às escolas e à comunidade. Porque a História não vive apenas nos livros. Vive nos lugares, nos monumentos, nas ruas, nas instituições, nas associações e, acima de tudo, nas pessoas.

Hoje, em Chaves, essa História está particularmente viva. Por isso, importa felicitar a Associação de Paraquedistas do Alto Tâmega pelo seu 32.º aniversário, assinalar os 70 anos das Tropas Paraquedistas Portuguesas e prestar homenagem à memória do Brigadeiro Paraquedista Armindo Martins Videira, no ano em que se assinala o seu 104.º aniversário. Mas importa, sobretudo, deixar uma palavra a todos aqueles que serviram e continuam a servir Portugal: aos militares no ativo, aos antigos combatentes, aos Paraquedistas de todas as gerações, aos associados da APAT, àqueles que já partiram e às suas famílias. A todos eles, o nosso respeito, o nosso reconhecimento e a nossa gratidão.

Porque a liberdade, a segurança e a soberania de um País não são conceitos abstratos. São valores que, ao longo da nossa História, foram defendidos por pessoas concretas — pessoas que vestiram uma farda, fizeram um juramento e disseram presente quando o País precisou delas. É por isso que, perante este Memorial, devemos afirmar com clareza: Portugal não pode esquecer quem o serviu. Chaves não esquece.

E este Aeródromo Municipal continuará a ser também um lugar onde essa memória possa permanecer viva. Que o nome de Armindo Martins Videira continue a ser pronunciado com orgulho. Que a rua que leva o seu nome continue a transmitir a sua história às gerações futuras. Que a Associação de Paraquedistas do Alto Tâmega continue a ser um espaço de camaradagem, memória e encontro. E que este Aeródromo continue a acolher aqueles que mantêm viva a história que hoje celebramos.

“Que nunca por vencidos se conheçam.”

Na memória. No exemplo. Na camaradagem. No serviço.

E na forma como cada geração continua a honrar aqueles que a antecederam.

Ao Brigadeiro Paraquedista Armindo Martins Videira, a nossa homenagem.

Às Tropas Paraquedistas Portuguesas, o nosso respeito.

À Associação de Paraquedistas do Alto Tâmega, o nosso reconhecimento.

Aos seus associados, a nossa gratidão.

E a todos os militares e antigos combatentes que serviram Portugal, bem como às suas famílias, o nosso muito obrigado. Que este Memorial continue a ser um lugar de memória.

Que esta história continue viva. E que Chaves continue a recebê-la com orgulho, respeito e gratidão. Nuno Coelho Chaves / 19SET2026…»

Seguiu-se um (excelente) almoço de confraternização, os saltos continuaram – muitos Tandem – e bem assim como no Domingo, trazendo de volta ao aeródromo e à cidade uma actividade que tem tradições na região!

Miguel Silva Machado, Torres Vedras, 21SET2026

 

Agradeço ao Dinis Ponteira e ao Jorge Martins as excelentes reportagens fotográficas que realizaram e que me permitem ilustrar este artigo. Obrigado!










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