KAÚLZA DE ARRIAGA E AS TROPAS PARAQUEDISTAS
O General Kaúlza Oliveira de Arriaga teve longa e chegada ligação às Tropas Paraquedistas Portuguesas. Muito desse percurso é conhecido, o próprio general escreveu sobre isso, mas parte ainda é desconhecido ou mal compreendido.
No
passadio dia 7 de Julho de 2026, a convite da Associação da Força Aérea
Portuguesa (AFAP), tive oportunidade de falar sobre este tema, na presença de
familiares e amigos do General Kaúlza, na ocasião em que a família ofereceu à
AFAP um importante espólio de documentos, livros, fotografias e objectos que lhe
pertenceram.
Sendo
uma das áreas da história das tropas paraquedistas que investiguei e continuo a
investigar, foi para mim um privilégio ter tido esta oportunidade.
Aqui
fica o texto lido nessa altura, na esperança que possa estar contribuir para o
melhor conhecimento da história das tropas paraquedista e das forças armadas portuguesas.
7
de Julho de 2026 – Associação da Força Aérea, Tenente-Coronel Miguel Silva
Machado
«…A
ligação do general Kaúlza de Arriaga às Tropas Paraquedistas Portuguesas é tão
extensa que se torna impossível de resumir. É assunto para um livro e não seria
pequeno! Kaúlza de Arriaga nem sempre conseguiu implementar as suas teses, os
obstáculos foram e são uma constante na vida das tropas paraquedistas. Mas
quando não conseguiu ultrapassá-los, o tempo veio a mostrar a sua razão!
Resumo
assim esta minha pequena intervenção a três casos que julgo comprovam o que
acabei de referir.
Primeiro
caso, criação e clarificação
Kaúlza
de Arriaga trabalhando directamente durante quase cinco anos com o Ministro da
Defesa Nacional – Fernando dos Santos Costa – primeiro como Ajudante de Campo e
depois como Chefe de Gabinete, acompanhou todo o processo de criação das Tropas
Paraquedistas (e antes da Força Aérea). Naturalmente, nesta fase sem poder de
decisão. Na realidade Santos Costa foi o criador dos boinas verdes portugueses,
a sua letra, os seus despachos, são uma constante em toda a documentação
relativa a este assunto entre 1953 e 1955.
Curiosamente o então Major Kaúlza de Arriaga,
escolhido pelo ministro para Subsecretario de Estado da Aeronáutica (SEA) e
nomeado pelo Decreto n.º 40250 de 07JUL1955, toma posse a 9, um Sábado, no
mesmo dia em que no país vizinho, em Alcantarilha na Escola Militar de
Paraquedismo do Exército do Ar de Espanha, os primeiros 200 paraquedistas
portugueses concluíram a sua formação. Foi nesse dia que receberam as
insígnias, e também pela primeira vez na nossa história, uma boina – a de cor
verde.
Voltando
a Lisboa e ao Secretariado-Geral da Defesa Nacional onde decorreram os estudos
para a criação das Tropas Paraquedistas, depois de alguma hesitação, Santos
Costa, decide colocar os paraquedistas na Força Aérea.
Na
realidade em 14 de agosto de 1955 quando os boinas verdes regressados de
Espanha desfilam pela primeira vez em Lisboa – Kaúlza de Arriaga está na
tribuna como SEA – são apresentados como “a mais jovem unidade da infantaria
portuguesa”, mas, em Novembro desse ano, quando são legalmente criados, o
Decreto 40.394, de 23 de Novembro, coloca a nova unidade na dependência do
Subsecretariado de Estado da Aeronáutica, em ligação com o Ministério do
Exército. O BCP era uma unidade da Força Aérea com algumas dependências do Exército. Entramos agora sim num período em que é muito clara a intervenção de
Kaúlza de Arriaga.
Em
23 de Maio de 1956 Kaúlza, acompanhado pelo Subsecretário de Estado do Exército
e as mais altas patentes militares nacionais e observadores estrangeiros,
inaugura o quartel do Batalhão de Caçadores Paraquedistas (BCP), em Tancos.
Aqui, os jornais já noticiam “a mais recente unidade da Aeronáutica”. Ao abrir
simbolicamente os seus portões, entra na história destas tropas. Depois de três anos a dupla dependência
(Força Aérea e Exército) mostrou à evidência as suas fragilidades, as decisões
arrastavam-se em contactos burocráticos entre ambos os ramos.
Kaúlza de Arriaga consegue em 1958, sendo
agora Ministro da Defesa o general Júlio Botelho Moniz, colocar o BCP na sua
dependência única. O Decreto-Lei n.º 42073 de 31 de Dezembro de 1958, clarifica
muitos aspectos, nomeadamente «...as Tropas Paraquedistas dependem... ...para
todos os efeitos e através dos órgãos adequados de direção e comando do
Subsecretariado de Estado da Aeronáutica, aplicando-se-lhes as disposições
vigentes na Força Aérea...». Pode-se dizer que aqui começou, pela visão e
determinação de Kaúlza de Arriaga, a grande autonomia funcional que marcou as
Tropas Paraquedistas nas décadas seguintes, até 31 de Dezembro de 1993. Kaúlza
apontou o caminho a Força Aérea assim sempre o entendeu também.
Segundo caso, antecipando a prontidão para a guerra
Muito
cedo, logo em 1959, o então Secretário de Estado da Aeronáutica, Kaúlza de
Arriaga, propõe ao ministro da defesa – Botelho Moniz – a transformação do
batalhão em regimento e a criação de batalhões de caçadores paraquedistas em
Angola e em Moçambique. Foi um processo que teve abundante troca de
correspondência com argumentos, pareceres, despachos, que se arrastaram por
…dois anos! No livro da autoria do Coronel Paraquedista Moura Calheiros sobre a
História do RCP este assunto ocupa várias páginas. Os entraves colocados pelo
Exército, Estado-Maior General das Forças Armadas e Defesa Nacional, foram
vários. Simplificando pode-se dizer que assentavam em custos e cuidados
julgados desnecessários. Argumentava-se que a colocação das unidades
paraquedistas em permanência no Ultramar seria muito dispendiosa, preferindo
manter as forças em território metropolitano e, em caso de necessidade,
proceder ao seu envio com carácter de urgência. Kaúlza argumentava que estando
no Ultramar melhor conheceriam o terreno, seria um factor de dissuasão e mais
rapidamente acudiriam a algum problema naqueles imensos territórios.
Enquanto
decorria esta frustrante troca de argumentos Kaúlza de Arriaga, visionário,
determina ao BCP o aumento do esforço de recrutamento. Na realidade o Batalhão
apenas podia recrutar dentro dos já militares, a maioria naturalmente no
Exército, o que reduzia muito o universo de voluntários possível de cativar.
Uma vez que a legislação permitia a possibilidade de recrutar mancebos – vindos
da vida civil – apenas a título excepcional, Kaúlza autoriza que essa excepção
passe a ser utilizada quase como regra e o recrutamento para paraquedistas
passou a abranger todo o país. Intensificaram-se as campanhas de recrutamento,
de 200 paraquedistas em 1955, o BCP alcançou em 1961, os 1.231. Ao mesmo tempo,
o Secretário de Estado da Aeronáutica também iniciou o processo de aquisição de
armamento e equipamento mais moderno e avaliou-se a doutrina de emprego no
estrangeiro. Por exemplo, na Argélia francesa, oficiais paraquedistas
observaram a realidade da guerra de contra-guerrilha que os paraquedistas ali
mantinham.
No
meio desta troca de argumentos com as chefias militares, acontece o 4 de
Fevereiro e os tumultos em Luanda, um primeiro alerta bem violento e logo
depois, a 15 de Março de 1961 o choque do ataque ao Norte de Angola pela União
dos Povos de Angola e o cortejo de barbaridades cometidas.
No
dia seguinte saem de Lisboa via aérea os primeiros paraquedistas, a 17 de Março
já estão a caminho do Norte de Angola – ali recebem as novíssimas espingardas
automáticas AR-10 Armalite mandadas comprar por Kaúlza de Arriaga – e durante o
mês seguinte novos pequenos contingentes de paraquedistas chegam via aérea à
Província Ultramarina. Tudo isto, note-se, ainda antes de 13 de Abril de 1961,
data em que o Presidente do Conselho de Ministros, anuncia ao país «...Andar
rapidamente e em força é o objetivo que vai por à prova a nossa capacidade de
decisão. Um só dia pode poupar sacrifícios e vidas a fim de defender Angola e
com ela a integridade da Nação…»
O que os argumentos de Kaúlza de Arriaga não
conseguiram junto da burocracia militar em Lisboa a guerra impôs sem novas
dúvidas! Em 5 de Maio Kaúlza de Arriaga assina pelo Ministro da Defesa Nacional
a Portaria n.º 18462 que transforma o BCP de Tancos em Regimento de Caçadores
Paraquedistas e a 8 o Presidente do Conselho de Ministros assina a Portaria n.º
18464 que cria os Batalhões de Caçadores Paraquedistas n.º 21 em Angola e o 31
em Moçambique, nas respectivas Regiões Aéreas.
Perdeu-se
tempo precioso…os boinas verdes podiam estar preposicionados em Angola desde
1959/60, o início da guerra poderia ter sido diferente. Kaúlza não conseguiu
fazer vingar a sua tese, mas a razão estava com ele.
Terceiro
caso, um oficial general para os paraquedistas…em 1962
Em
16 de Julho de 1962 o Secretário de Estado da Aeronáutica envia ao Presidente
do Conselho de Ministros, um projecto de diploma para a criação, na Força
Aérea, do cargo de Inspector das Tropas Paraquedistas, a ser assumido por um
brigadeiro. (Nessa altura comandava o RCP – o Coronel Mário Robalo – tinha
assumido o comando recentemente; o coronel Martins Videira, tinha deixado o RCP
e estava colocado na Direcção de Recrutamento e Instrução das Força Aérea,
órgão do qual dependia o RCP. Seria, portanto, promovido a brigadeiro, Martins
Videira).
Kaúlza justificava com a necessidade de haver
quem inspecionasse / avaliasse as diferentes unidades paraquedistas, na
Metrópole e no Ultramar – já eram 3, cada uma dependente da sua região aérea e
poderiam vir a ser mais (de facto foram) – e ainda unidades de defesa das
unidades aéreas.
Oliveira
Salazar pede um parecer ao CEMGFA, que se pronuncia negativamente. Argumentou o
general do Exército Manuel Gomes de Araújo, entre outros aspectos menores, que
os paraquedistas eram em número reduzido para justificar um oficial general
nestas funções. Comparava com os números do Exército e os de brigadeiros nesse
ramo como inspectores. Salazar envia o parecer do CEMGFA a Kaúlza de Arriaga
que volta à carga e rebate as objecções com números de militares paraquedistas
na Metrópole e no Ultramar aos quais junta as “Tropas de Segurança”
necessárias, para defesa de Bases Aéreas e Aeródromos e acrescenta: «…Os
chefes da Força Aérea estão, por formação e deformação profissional,
inteiramente orientados para tudo o relativo com a actividade aérea e para a
acção operacional… …exclusivamente aérea. Apenas com aqueles chefes, não é
possível preparar e manter com a necessária eficiência e prontidão operacional,
as forças terrestres que houve que constituir na Força Aérea… …As Tropas
Paraquedistas, mal ou bem, pertencem hoje à Força Aérea e devem continuar a
pertencer-lhe. De contrário arriscar-se-ia a sua destruição... ...para estas
forças (Paraquedistas e Tropas de Segurança) torna-se necessária a
existência de um comando que as prepare, as mantenha eficientes e
operacionalmente prontas, incluindo toda a acção relativa ao pessoal, material
e doutrina de emprego... ...assim, mantenho a minha proposta de criação de um
lugar de brigadeiro paraquedista. Vossa Excelência resolverá, na certeza de que
a sua solução passará a ser a minha. Lisboa 22AGO1962.»
A
30 de Agosto Salazar redige um despacho...indecifrável, mas negativo, o tal
lugar nunca foi criado. Kaúlza de Arriaga deixa pouco depois o cargo de
responsável político pela Força Aérea e o assunto encerrou-se.
Não
deixa, no entanto, de ser interessante pensar como teria evoluído a organização
paraquedista com esse cargo. Na realidade, poderia ser um primeiro passo para
disporem de um comando autónomo dentro da Força Aérea – recorda-se que as
unidades paraquedistas dependiam nesses tempos dos comandos das regiões aéreas
onde estavam instaladas e não de um comando paraquedista. Mais tarde, viria a
acontecer, mais de uma década depois! Em 1975 foi criado o Corpo de Tropas
Paraquedistas da Força Aérea Portuguesa e em 1980 ficou finalmente sob o
comando de um brigadeiro, Heitor Almendra.
Kaúlza
de Arriaga teve uma relação próxima com os paraquedistas, durante toda a vida.
Em 30 de Dezembro de 1993, no dia da cerimónia de extinção do Corpo de Tropas
Paraquedistas e criação do Comando das Tropas Aerotransportadas no Exército,
teve o cuidado de enviar ao comandante dos paraquedistas um telegrama a desejar
as maiores felicidades no novo ramo.
Recentemente,
em 2021, num processo difícil, cheio de entraves da hierarquia, o Regimento de
Paraquedistas, com o apoio de um pequeno grupo de mecenas – sem gastar um
cêntimo à Fazenda Nacional – instalou no Edifício de Comando frente ao icónico
Monumento aos Mortos em Combate, um Memorial aos Fundadores, homenageando os
decisores políticos e militares que marcaram as Tropas Paraquedistas na Força
Aérea. Lá está, como é justo, Kaúlza Oliveira de Arriaga. Os paraquedistas
também nunca o esqueceram.
Sem
dúvida via antes o que alguns nunca perceberam, sabia o que era necessário para
manter uma força de élite e quando necessário foi, para a empregar. Muito do
que os paraquedistas foram a ele se deve e parte disso ficou até aos nossos
dias.
Muito
obrigado, Meu General!
Miguel
Silva Machado, 7JUL2026
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