1 DE JULHO DE 1956, O BATALHÃO DE CAÇADORES PARAQUEDISTAS SALTA SOBRE LISBOA E RECEBE O ESTANDARTE NACIONAL


Datas marcantes não faltam este ano de 2026, para quem quiser homenagear as Tropas Paraquedistas no seu 70.º aniversário, sejam os próprios boinas verdes, sejam outros militares ou governantes…

No próximo dia 1 de Julho de 2026, mais uma data muitas vezes esquecida: o nosso primeiro “Dia das Forças Aéreas”(*).

Nesse dia 1 de Julho de 1956, Domingo, as festividades incluíram um Festival Aéreo no Aeroporto da Portela de Sacavém, como então se designava o aeroporto de Lisboa. Foi a primeira vez que o Batalhão de Caçadores Paraquedistas realizou um “salto em massa” sobre Lisboa (4 JU-52/40 paraquedistas). Não tenho a certeza se mais alguma vez tal sucedeu na capital!

Para o descrever socorro-me de um artigo (não assinado) que foi publicado em Setembro de 1956, no n.º 1 do “SALTA, Orgão mensal do paraquedista", jornal do Batalhão de Caçadores Paraquedistas e do “Diário de Lisboa” desse mesmo dia 1 de Julho, visto tratar-se de um jornal vespertino. Pelos termos usados no “Salta”, o texto é bem possível ser da autoria de algum jornalista, ou cópia da imprensa diária, seja como for dá uma boa imagem do que aconteceu nesse dia.

Entre outras coisas chamo a atenção para o significativo facto dos paraquedistas, que todos a seu tempo e nas suas unidades tinham Jurado Bandeira, voltaram aqui a Jurar Fidelidade ao seu Estandarte Nacional. Constata-se também a atenção que o poder político prestava ao BCP, um ano antes (14AGO1955) tinha também sido o Presidente da República a entregar o Guião ao Batalhão.

(Não resisto a comentar que este ano do 70.º aniversário, nem Presidente da República nem qualquer ministro, se dignou - ainda - sequer a visitar Tancos)

Do “Salta”:

"No passado dia 1 de Julho, tiveram lugar no Aeroporto da Portela de Sacavém as solenidades comemorativas do «Dia das Forças Aéreas».

De todas as artérias convergentes com aquele aeroporto, ainda muito antes da hora marcada para o início do programa, começou a afluir em massa compacta a multidão. Essa multidão ávida de espectáculos impressionantes, acorria para admirar, aqueles que do céu e no céu vivem num sentimento patriótico.

O tempo, que aos primeiros alvores da manhã se havia mostrado bom, modificou-se instantaneamente, como que a querer servir de adversário. Por vezes começou a cair chuva. Todavia, o público não esmoreceu e firme nos seus lugares lamentava apenas que os elementos se houvessem transformado, tendendo assim a prejudicar o espectáculo.

Entretanto chegou Sua Ex, ª o Senhor Presidente da República ao qual prestou guarda de honra uma formatura da Base Aérea 1. Nesse instante descolaram os 4 aviões que transportavam as forças paraquedistas.

Nos rostos dos assistentes, notou-se algo de admirativo, ao verem acercarem-se os aparelhos que haviam levantado convergente desta forma todos os olhares para as máquinas que no espaço trabalhavam. A uma altura de 400 metros, chegaram à vertical do ponto onde nos encontrávamos e nesse momento, viram-se sair para o espaço uns pontos negros, que momentos não eram passados, debaixo das cúpulas enfoladas dos paraquedas se sustinham no espaço. Eram os paraquedistas!

O público num frémito constante admirou o espectáculo inédito.

Ainda pairava no ar a admiração que causaram os paraquedistas, quando sem outro aviso, a não ser o ruido dos seus motores a reação, elevaram-se no ar os aviões componentes da esquadrilha dos «Dragões». Evolucionado por sobre a multidão a baixa altitude - mais não permitia o teto de voo - conseguem demonstrar a sua técnica e perícia.

E como estava previsto efectuou-se em seguida o desfile aéreo, passando sobre nós, num conjunto harmonioso os mais diversos tipos de avisões de que, as Forças Aéreas dispõem.

Terminado o desfile, na Aero-gare apresentou-se a formatura do Batalhão de Caçadores Paraquedistas. Sua Ex.ª o Senhor Presidente da República, desceu do lugar onde se encontrava, e veio entregar nas mãos do Ex.mo Comandante do Batalhão, a Bandeira Nacional. Depois dos acordes da «Portuguesa» fez-se silêncio absoluto. Os paraquedistas ergueram os braços à altura dos seus peitos, em direcção ao pavilhão verde-rubro, e em uníssono, prestaram juramento de fidelidade à sua Bandeira, à Pátria.

E assim terminaram as solenidades do «Dia das Forças Aéreas.

Começaram a retirar-se os milhares de pessoas, e nós ficamos cientes, que no seu subconsciente levavam gravadas o valor, a audácia e a técnica dos que honrosamente servem as Forças Aéreas, e souberam mostrar nesse dia, ainda que prejudicados pelo tempo, que nada os atemoriza, quado sejam algum dia chamados a defender a Pátria.”

Do “Diário de Lisboa”:


A imprensa da capital deu enorme destaque ao evento e aos paraquedistas. 

“A largada dos pára-quedistas

Eram 10 e 48 quando o grupo de quatro «Junkers» de transporte, em coluna simples, despontou de Leste, voando a uns 400 metros de altura. Minutos depois, quando se fez, instintivamente, um silêncio profundo entre aqueles milhares de pessoas, abriu-se a cabine do primeiro aparelho e viu-se cair um vulto instantes após sobrepujado pela umbela do pára-quedas. Com intervalos de dois segundos saltaram mais nove soldados, que desceram suavemente sobre o campo. Mas o vento estava mais rijo e os homens tocaram o solo impelidos com força demasiada. Entretanto, os outros aparelhos largavam, cada um dez homens, os quais sob a acção do vento de SW foram tocar o solo mais para Leste do que os primeiros. Alguns soldados foram arrastados pelo chão durante certo tempo, como sempre sucede quando há vento forte, e dois sofreram ferimentos — um num pé e outro no pescoço.

Ainda vinham no ar os últimos pára-quedistas e já os aviões a jacto da famosa «Esquadrilha dos Dragões», da base da Ota, faziam ouvir os silvos estridentes dos seus motores, preparando-se para a exibição acrobática…

A entrega da bandeira aos pára-quedistas

Terminado o desfile aéreo, o sr. presidente da República, acompanhado pelo subsecretário de Estado da Aeronáutica, pelo general Costa Macedo e pelo brigadeiro Deslandes, desceu à aero-gare para fazer entrega da bandeira nacional ao Batalhão de Pára-quedistas. Esta unidade, precedida da banda de Caçadores 5, avançava para o centro da aero-gare, sob o comando do capitão Videira. Os homens apresentavam-se com o seu equipamento de combate — farda de cotim, boina verde, espingarda-metralhadora. Quando o batalhão tomou a formatura para a cerimónia, o sr. general Costa Macedo entregou ao chefe do Estado o pavilhão nacional. O sr. presidente da República confiou-o então ao porta-bandeira, com palavras de saudação e votos de que os pára-quedistas possam honrar sempre a bandeira de Portugal. De braço estendido, os soldados do ar prestaram então juramento. repetindo a fórmula clássica, dita ao microfone pelo brigadeiro Deslandes. O porta-bandeira ergueu então o estandarte ao alto e ecoaram pelo aeroporto os acordes marciais da «Portuguesa» em continência ao pavilhão nacional. Ao som de marchas militares, o batalhão desfilou depois perante o chefe do Estado…”

 


De assinalar que nesta data, 1 de Julho de 1956, todos os Oficiais, Sargentos e Praças do Batalhão foram louvados em Ordem à Aeronáutica “...pela maneira como sempre souberam apresentar-se...", tal vinha a ser o impacto público em todas as apresentações que a nova unidade criada em tão pouco tempo. Criada de facto menos de um ano antes, oficialmente a 1 de Janeiro desse ano de 1956 e com o quartel inaugurado a 23 de Maio, o BCP, melhor, os seus militares já antes tinham sido colectivamente louvados, em 28 de Outubro de 1955, na sequência da apresentação à Nação em 14 de Agosto de 1955, “…pela altivez com que se apresentaram no desfile … …pela dedicação á instrução e boas impressões deixadas nas autoridades civis e militares com que tiveram relações no estrangeiro…” (tinham regressado há poucas semanas do Curso de Paraquedismo Militar em Alcantarilla, Espanha).   

Depois do primeiro salto em Tancos a 18 de Outubro de 1955, a participação nas comemorações do Centenário de Mouzinho de Albuquerque, em Novembro, a entrada no BCP em Tancos a 3 de Fevereiro de 1956, do “salto em massa” na Golegã também em Fevereiro e depois o inicio da actividade aeroterrestre no Arripiado, a inauguração do BCP a 23 de Maio, data em que também se realizam saltos em paraquedas no Arripiado, nova sessão de lançamento na cidade de Coimbra em 13 de Junho, e agora, a participação em Lisboa no Dia das Forças Aéreas e a realização de saltos em paraquedas na capital!

A nova unidade com 200 militares especializados em paraquedismo, desenvolvia uma actividade até então inédita em Portugal, e fazia-o de modo que todos consideravam exemplar. As lacunas eram muitas, mas a vontade era maior.

Fica para a história a frase do seu primeiro comandante, hoje gravada na pedra do Monumento que a Associação de Paraquedista do Alto-Tâmega lhe erigiu em Chaves:

De nós, os primeiros paraquedistas, nunca se dirá que não lutamos até ao limite das nossas forças para o engrandecimento do Batalhão, para maior prestígio e glória das Forças Armadas e de Portugal”. Major Paraquedista Armindo Martins Videira, 1958.

Miguel Silva Machado, 27 de Junho de 2026

(*) A criação da Força Aérea Portuguesa, novo ramo das Forças Armadas, era recente (1952) e teve origem na Aviação Naval e na Aeronáutica Militar, daí, destas duas anteriores “Forças Aéreas”, esta expressão.

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