SOBRE O "EXORDIUM" – MEMORIAL AOS FUNDADORES DO REGIMENTO DE PARAQUEDISTAS

 



Sobre o EXORDIUM – Memorial aos Fundadores no Regimento de Paraquedistas

Obrigado, Coronel Paraquedista Paulo António dos Santos Cordeiro!

Nos paraquedistas temos muita dificuldade em homenagear os vivos, há sempre muita resistência e levantam-se logo uma série de “contra-indicações”. Mas tem havido excepções e ainda bem. Hoje é mais uma!  

Quem entra pela Porta-de-Armas do Regimento de Paraquedistas tem na sua frente o imponente Monumento aos Mortos em Combate, símbolo maior da unidade desde 1968, verdadeiro ex-libris da Casa-Mãe das Tropas Paraquedistas Portuguesas. Continuando, não pode deixar de notar, na parede do Edifício de Comando, um enorme painel metálico onde se distinguem cinco rostos. Desde 2021 ali está esta obra de arte designada Exordium – do latim, “início” ou “começo”.

Neste ano do 70.º aniversário da Criação Oficial das Tropas Paraquedistas Portuguesas e porque já passam 5 anos sobre a sua instalação, vou aqui trazer algumas notas pessoais (que não a história completa do memorial, a seu tempo se fará) sobre esta obra que muito enriqueceu o património histórico do Regimento. Trata-se de uma interessante forma de, a dois tempos: honrar aqueles decisores políticos e chefes militares que assumiram a criação, desenvolvimento e reconstrução das Tropas Paraquedistas; incentivar os que ingressam na Família Paraquedista ou os simples visitantes, a saberem mais sobre nós, sobre a nossa história.

No início de 2021 – ou talvez até ainda em 2020 – o Coronel Paraquedista Paulo Cordeiro, comandante do RParas, olhando para as homenagens que as paredes e ruas da unidade nos mostram – e justíssimas são! – constata que aqueles nomes são de paraquedistas mortos em combate ou em serviço, nomeadamente na actividade aeroterrestre. Pensa então que talvez faltasse também o reconhecimento público à pessoa ou pessoas, decisivos na nossa história colectiva como instituição.


Analisa factos históricos, pede várias opiniões e acaba por decidir que será justo e terá correspondência com a realidade do processo de criação e desenvolvimento das Tropas Paraquedistas, distinguir não uma pessoa, mas várias. Sendo certo que o estudo e decisão da criação desta força de elite foi da personalidade que tinha o poder político e militar e a vontade para o fazer, o Ministro da Defesa Nacional, também é verdade que o desenvolvimento e reforço das Tropas Paraquedistas depois da criação, foi suportado na visão e força política do Subsecretário de Estado da Aeronáutica. Seria injusto esquecer um dos dois. Do mesmo modo a acção determinante do primeiro comandante do Batalhão de Caçadores Paraquedistas, sempre coadjuvado pelo segundo-comandante, depois também ele comandante do já Regimento por quase 10 anos, aconselhavam, obrigavam a ser ambos reconhecidos. Quanto ao primeiro oficial-general que comandou as Tropas Paraquedistas e rosto do renascimento dos boinas verdes portugueses após os anos da quase-extinção, era uma evidência consensual, ficou uma pessoa.

Foi Paulo Cordeiro a contactar Alcides Baião Neto, artista plástico que pôs “mãos à obra”, seguindo as diretivas do comandante e elementos de consulta sobre quem se pretendia homenagear. Apresentou uma solução, quem viu o projecto, várias pessoas, gostaram, houve ali um ou outro acerto de detalhe e chegou-se ao que todos vemos. O trabalho, seguindo as indicações de Alcides Neto, foi executado na Primetool do Grupo Filipe Faria, em Torres Novas, empresa que depois procedeu à sua montagem.

Foi ainda decisão do comandante não gastar um cêntimo de dinheiro público na obra! Desde o início pensou em angariar recursos financeiros junto de antigos paraquedistas militares que desejassem contribuir. Não foi um processo simples, nem fácil. Ainda por cima, vivíamos o estado de emergência da Pandemia Covid! Quando se trata de “conversa de café” a generosidade é muita, na prática as coisas são bem mais complicadas. Os mecenas que realmente contribuíram estão identificados na documentação que o Regimento divulgou e na revista Boina Verde, como são públicas todas as contas deste processo. Está tudo no código QR que podem ver no fima do artigo. Quero apenas deixar umas notas – positivas – porque assisti a todo o processo.  Um antigo paraquedista militar, por sinal o mais novo dos mecenas, dispôs-se pagar a totalidade do projecto, o comandante agradeceu, mas tentou que fossem vários. Pensava e bem que seria mais simbólico. Assim na reunião em que alguns potenciais mecenas estavam presentes, houve algum impasse só desbloqueado quando um deles, um veterano do Ultramar, disse claramente que avançava com uma determinada importância.  A este boina verde se deve assim “a tabela” que se criou, uma vez que depois, os seguintes avançaram com a mesma importância. Nesse dia não foi possível obter a verba necessária, vários “borregaram”. Depois, para evitar a solução inicial de serem apenas dois ou três a pagarem, apesar de já haver dinheiro para pagar a obra, por contactos directos com outros paraquedistas fora do activo a verba foi obtida, cabendo a cada mecenas uma importância igual. O coronel Cordeiro fez sempre questão que fossem paraquedistas desligados do serviço a suportar os custos.


O coronel Paulo Cordeiro e Baião Neto (2.º da esquerda) posam para a posteridade com os funcionários da firma que procedeu à execução e montagem da obra - 19NOV2021.

Mas…o assunto não estava resolvido, havia obra, dinheiro para a pagar, mas, há sempre um mas, a luta seguinte, por incrível que pareça, ameaçava cancelar tudo.  Vou sintetizar apenas referindo que os escalões na hierarquia da qual depende o Regimento, especialmente a nível do Comando das Forças Terrestres (CFT), foram obstáculos piores que os da “Pista Vermelha”! Tudo era problema, tudo demorava meses, o medo de que alguém ligado ao panorama político-partidário nacional “não gostasse” da homenagem foi uma evidência. Depois da intervenção de juristas, de informações de associações de paraquedistas com opinião sobre o trabalho – incrível, não é? - dos mecenas terem de cumprir todos os formalismos legais levados ao extremo, mesmo assim, ainda havia a intensão de instalar o memorial – concebido para aquele local – afinal…”escondido” no museu! No meio disto tudo, até a inauguração, com convites feitos a familiares dos homenageados, aprazada para 7 de Setembro, teve de ser cancelada! A autorização formal, o despacho superior não chegava. De Agosto a Outubro estava “em espera” no CFT, não havia meio de sair para o Chefe do Estado-Maior do Exército (CEME). Esta situação absurda manteve-se apesar de contactos directos do comandante com o CFT, desconhecendo-se se toda a situação era ou não do conhecimento do CEME.

No Salão Nobre do RParas, no dia da inauguração - 09DEZ2021 -  o Comandante dirige-se aos mecenas presentes, Manuel Viterbo de Almeida, Victor Manuel Caio Roque, Agostinho Ferreira e António Joaquim Regedor Amaro.


Aproximava-se a passos largos o dia em que o Coronel Cordeiro iria deixar o comando do Regimento e…nós nisto! Outro comandante teria a força necessária para enfrentar estas dificuldades num projecto que nem era seu? Logo no início do seu tempo de comando iria confrontar o escalão superior com a situação que este aparentemente boicotava? Impossível saber.

Mais uma vez aqui a firmeza das convicções do Comandante foi transportada para as suas decisões. A 19 de Novembro de 2021, por sua ordem e risco, o memorial, sem alarde, apenas na presença de algumas pessoas ligadas ao assunto, foi instalado pela firma que o construiu e pelo artista que o concebeu.

Ficou muitíssimo bem! Agora era aguardar o despacho do CEME para o inaugurar ou…mandar retirar.

Da esquerda: Baião Neto; Caio Roque; António Amaro; Paulo Cordeiro; Agostinho Ferreira; Viterbo de Almeida (não estiveram presentes os mecenas Moura Calheiros e Miguel Machado)

 A 6 de Dezembro o Chefe do Estado-Maior do Exército autoriza por seu despacho desse dia a aceitação pelo RParas do memorial – uma doação de antigos paraquedistas militares – a 9 procede-se à inauguração, apenas com alguns dos mecenas presentes, não houve tempo para mais, nesse mesmo dia o Coronel Cordeiro deixa o comando do Regimento de Paraquedistas, no dia seguinte, 10 de Dezembro de 2021, o novo comandante tomou posse.

Tudo isto decorreu, imagine-se, durante a Pandemia Covid! Recordam-se como era?

Bem-hajas Paulo Cordeiro!

                                                     Miguel Silva Machado, 02MAI2026


Informação oficial do RParas sobre o "Exordium":



Monumento aos Mortos em Combate, o ex-libris da Casa-Mãe das Tropas Paraquedistas Portuguesa, em Tancos. Inaugurado em 1968 sendo comandante o Coronel Mário de Brito Monteiro Robalo. Construído também com o contributo de mecenas e de militares da unidade, é  obra do escultor Mestre Soares Branco (estudo e execução da estátua e da legenda), para a qual contribuíram com o seu trabalho o arquitecto Aleixo Terra da Motta, o pintor Ernâni de Jesus da Silva Oliveira que executou o magnifico painel de mosaico sob o lago. A construção civil esteve a cargo de Zeferino José (Herdeiro).

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